September 05 2010 20:34:00
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Não é fácil resumir em poucas linhas a figura de J. G. Fichte, uma figura decisiva para a filosofia alemã precisamente num período em que esta goza de uma extrema complexidade e riqueza e do qual se inspira, em parte, a filosofia ocidental durante os dois séculos seguintes. Para além disso, a sua vida está estreitamente ligada à sua obra, à qual se dedicou com um entusiasmo e uma paixão que caracterizam também a sua filosofia. Contemporâneo de acontecimentos decisivos da história da Europa (revolução francesa, revolução industrial, guerras napoleónicas, a emergência dos primeiros nacionalismos…), o seu pensamento soube captar como poucos o espírito da época e transportá-lo para o debate filosófico. A sua irrupção no panorama alemão na década de 90 polarizou os debates em torno da sua obra e da interpretação da herança kantiana, estabelecendo assim as bases para os sistemas idealistas que se sucederam. Foi em 1794, ao ocupar a cátedra de Reinhold, que a sua figura ficou célebre e captou os entusiasmos de uma jovem geração de filósofos que acorriam a Jena com o intuito de ouvir as suas aulas, para as quais publicou um manual intitulado Grundlage der gesammten Wissenschafstlehre (Fundamentação de toda a Doutrina da Ciência). Esta última expressão – “doutrina da ciência” – serviu daí em diante para nomear a sua filosofia.

O que é certo é que apenas alguns anos antes, Fichte era praticamente desconhecido. Nascido em 1762 no seio de uma modesta família da aldeia de Rammenau, os seus dons permitiram-lhe receber uma ajuda para estudar na Schulpforta (1774-1780), uma das mais prestigiadas instituições educativas da Alemanha de então, onde anos mais tarde Nietzsche também estudou. Quando aí terminou os seus estudos, ingressou no curso de Teologia e Direito em Jena, Wittenberg e Leipzig. Concluída a sua formação universitária, trabalhou como docente privado em Leipzig e mais tarde em Zurique, onde conheceu em 1790 Johann Rahn, com quem se casou em Outubro de 1793.

A sua estadia na Schulpforta e os seus estudos em Teologia e Direito tinham-no dotado de uma formação e visão amplas que aplicou depois a um dos problemas centrais da cultura alemã, como era o problema das relações entre razão e sentimento, a respeito do qual o seu Escrito de Despedida da Schulpforta (1780) já mostrava uma preocupação considerável. Contudo, é já fora dessa instituição, no escrito Sobre as intenções da morte de Jesus (1786), que Fichte, apesar de partir de uma perspectiva marcadamente teológica, se posiciona no sentido da necessidade de unificar ambas as instâncias, ao mesmo tempo que se mostra preocupado em preservar a liberdade face à ameaça que o deísmo pode representar para a mesma. E é precisamente essa preocupação com a liberdade que converte a leitura da segunda crítica kantiana, em 1790, num grande acontecimento para Fichte.

Foi essa leitura que conquistou definitivamente Fichte para a filosofia e caracterizou a sua obra como um sistema da liberdade, reescrito de forma incansável até ao final da sua vida. Como nos recorda numa carta ao seu amigo Weisshuhn, datada de Setembro de 1790, a partir de então vive num novo mundo. Todavia, esse mundo, que era o kantiano, estava longe de ter resolvido o problema das relações entre liberdade e necessidade. A solução da terceira Crítica não satisfazia Fichte. Por essa razão, ele projecta um primeiro ensaio, que visa resolver esse problema e do qual dá conta a Kant em Königsberg. Fichte fá-lo no âmbito da projectada quarta Crítica que Kant, todavia, não tinha levado a cabo e que deveria ser dedicada à religião. O resultado foi o Ensaio de uma crítica de toda a Revelação, publicado em 1792 de forma anónima, o que favoreceu que, durante um certo tempo, esta obra fosse atribuída ao próprio Kant. Essa circunstância editorial concedeu-lhe uma notoriedade decisiva, ao ponto de lhe permitir ocupar, apenas dois anos mais tarde, em 1794, a cátedra de Karl Leonhard Reinhold em Jena.

Reinhold tinha assumido a tarefa de unificar a obra de Kant sob a faculdade de representação e tinha recorrido para tal ao que chamava facto de consciência como princípio supremo e comum das três críticas. Por seu lado, Fichte, tanto na mencionada Crítica da Revelação, como noutros escritos de 1793, A reivindicação da liberdade de pensamento e as Contribuições para a rectificação do juízo do público sobre a revolução francesa, tinha já constatado que a unificação da obra de Kant, se queria preservar a liberdade, só se podia fazer a partir da própria liberdade.

Por essa razão, num breve escrito que tinha por título Recensão de Enesidemo (1794), explica como o princípio de consciência de Reinhold, na medida em que é um facto (Tatsache), não pode servir como princípio e propõe substituí-lo por outro a que chama Tathandlung. Pode considerar-se que a Doutrina da Ciência nasceu neste momento. Nesse mesmo ano, já ocupando a cátedra de Jena, Fichte publica dois trabalhos em que procura explicar o novo sistema no seu conjunto: Sobre o conceito da doutrina da ciência e Fundamentação da doutrina da ciência. Neles está já contido o fundamental da sua filosofia como filosofia da liberdade. As obras e as aulas de Fichte têm nesse momento uma enorme repercussão, sobretudo junto da geração mais jovem que acorre a Jena com grande entusiasmo, entusiasmo esse que, aliás, está ligado aos ecos da Revolução Francesa. Em Tübingen, Hegel, Hölderlin, Schelling partilham esse fervor pela revolução e pela filosofia de Fichte, que surge aos seus olhos como o culminar da obra de Kant e o início de uma nova era.

Contudo, as críticas e os malentendidos não tardaram: acusaram-no de ter traído o espírito do próprio Kant, especialmente no seu tratamento da coisa em si e da intuição intelectual. Fichte vê-se obrigado a responder a essas críticas em dois escritos que são conhecidos como Primeira e segunda introdução à doutrina da ciência (1797) e empreende uma nova reformulação desta no seu Ensaio de uma nova presentação da doutrina da ciência, o que já tinha prcurado executar na Fundamentação do direito natural segundo os princípios da doutrina da ciência (1796). Mas as críticas e a incompreensão começaram a vir também dos jovens que tinham acorrido às suas aulas com entusiasmo, como era o caso de Hölderlin. Inclusivamente, o jovem Schelling, que se tinha declarado seu seguidor e que tinha publicado as suas primeiras obras na esteira de Fichte, começou a descobrir deficiências no tratamento fichteano da natureza. Em 1800, Schelling distanciou-se da obra de Fichte e apresentou o seu próprio sistema.

Nesse ambiente de hostilidade e incompreensão crescentes, ocorreu um incidente que viria a dar lugar ao que se conhece como Polémica sobre o ateísmo e que marcaria, em grande medida, a evolução posterior da vida e da obra de Fichte. Em 1798, Forberg tinha publicado um escrito que situava a obra de Fichte nos limites do ateísmo. Face a este escrito, o próprio Fichte decide, por sua vez, publicar o escrito intitulado Sobre o nosso fundamento da crença num governo divino do mundo. Foi este escrito que motivou, por sua vez, um texto anónimo de resposta que tinha por título Carta de um pai ao seu filho estudante a propósito do ateísmo de Fichte e Forberg. O príncipe eleitor de Weimar acabou por confiscar a revista que Fichte dirigia com Niethammer. Fichte respondeu a este facto com um escrito intitulado Apelação ao público (1799). A polémica continuou, intervindo nela outros personagens como Jacobi, Heusinger e Eberhard.

Em resultado destes acontecimentos, Fichte viu-se obrigado a abandonar Jena em 1799, começando uma nova etapa em Berlim. Em 1800, já em Berlim, publica além da sua obra principal de teoria política, O estado comercial fechado (1800), uma nova versão popular da Doutrina da Ciência, com o título O destino do homem, na qual se constatam claramente os efeitos da polémica. A partir de então, não deixou de elaborar novas versões até à versão de 1813, pouco antes da sua morte em 1814, numa evolução em que a sua filosofia da liberdade e o acento posto no Eu dos seus primeiros escritos se vê transformado pelas noções de Imagem, Ser e Deus, facto que divide hoje os intérpretes a respeito da sua fidelidade às suas primeiras formulações anteriores à polémica sobre o ateísmo.

Certo é que, em Berlim, Fichte obteve rapidamente o favor de um público selecto e dos ambientes intelectuais, artísticos e políticos berlinenses. Durante esses anos acorreram como ouvintes às suas palestras influentes personagens da vida prussiana, incluindo ministros. Em 1804 retoma as lições públicas e acaba por regressar à vida académica em 1805, ao ser contratado como professor na Universidade de Erlangen, que pertencia então à Prússia, onde leccionou no semestre de Verão desse mesmo ano. A derrota prussiana em Jena, em Outubro de 1806, surpreende-o em Berlim, levando-o a fugir para Königsberg, onde é nomeado professor e de onde regressa à capital da Prússia um ano mais tarde, depois de uma breve estadia na Dinamarca.

Mas, precisamente no Outono de 1807, estava já em marcha um projecto para criar uma universidade em Berlim e Fichte é encarregado de elaborar um plano para uma instituição universitária. Apesar de o seu plano não ter sido tido em conta, impondo se finalmente o modelo de Humboldt, Fichte acabou por ser nomeado Decano da Faculdade de Filosofia e primeiro Reitor da Universidade de Berlim, finalmente fundada em 1810. Um ano antes, Fichte tinha sido nomeado académico da Academia de Ciências da Baviera.

Nesses anos, como dizíamos, a sua actividade tinha recuperado o favor do público em lições e conferências que tiveram uma repercussão notável e que voltaram a outorgar-lhe uma notoriedade considerável junto de um público mais vasto. Exemplos desse facto, pela sua repercussão, são os Discursos à nação alemã (1807), pronunciados após a invasão napoleónica e que constituem uma obra chave do primeiro nacionalismo alemão. Na realidade, os Discursos eram uma continuação das suas não menos relevantes lições sobre a filosofia da história pronunciadas em 1804 com o título As características da época contemporânea e publicadas finalmente em 1806, data em que pronuncia outras conferências relevantes sobre a filosofia da religião com o título de Exortação à vida bem-aventurada (1806).

Em 1814, contrai uma infecção e falece nesse mesmo ano com 51 anos, deixando uma obra póstuma consideravelmente extensa e uma influência que dura até aos nossos dias.



Vicente Serrano Marín (tradução para português: Teresa Gomes Pedro) Madrid, marzo de 2007

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